quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pastilhas e adesivos de substituição de nicotina não funcionam a longo prazo

Deixar de fumar depende mais da vontade e do ambiente social dos fumadores do que dos produtos habitualmente usados para ajudar no processo, como pastilhas ou adesivos de nicotina, que não têm um efeito perdurável. A conclusão é de um estudo da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, que não surpreende os médicos, mas põe em causa uma indústria em crescimento.
Nos Estados Unidos, onde aqueles produtos são de venda livre desde 1997, o mercado progrediu dos 129 milhões de dólares em 1991 para os 800 milhões de dólares em 2007, segundo o The New York Times (o que equivale, ao câmbio actual, a 100,7 milhões de euros e a 624,9 milhões de euros, respectivamente).

Em 2002, as conclusões de um inquérito alargado levado a cabo pela Universidade da Califórnia, em San Diego, sugeriam que o uso de pastilhas e adesivos de nicotina era indiferente para quem tentava deixar de fumar. O que contrariava os estudos médicos em que se baseavam as recomendações para a utilização destes produtos.

A controvérsia tem sido muita, gerada a partir de resultados aparentemente divergentes. No entanto, o estudo feito em Harvard, o mais completo e rigoroso produzido até aos dias de hoje, é o primeiro a acompanhar ao longo de vários anos um mesmo grupo de fumadores que tenta deixar de fumar, se de facto conseguem fazê-lo e como.

O estudo, publicado nesta segunda-feira no Tobacco Control, arrancou em 2001 com uma amostra representativa de 1916 adultos, dos quais 787 tinham acabado de deixar de fumar. A cada dois anos, até 2006, foram questionados sobre o uso de produtos alternativos de nicotina, períodos de abstinência de tabaco e recaídas.

O que os investigadores verificaram é que cerca de um terço das pessoas que estavam a tentar deixar de fumar recaíam, sem que o recurso ou não de pastilhas ou adesivos de nicotina no processo terapêutico fizesse diferença, com ou sem acompanhamento médico. Gregory Connolly, director do Centro para o Controlo Global de Tabaco, da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, admite, no entanto, benefícios no curto prazo.

“Não estudámos se os adesivos ou as pastilhas ajudavam a parar [de fumar] no curto prazo. Há provas claras de que ajudam”, disse Gregory Connolly, citado pelo Guardian. “O que demonstrámos é que o efeito não dura no longo prazo.”

A reposição de nicotina pode ajudar a parar de fumar, mas não é suficiente para prevenir recaídas à medida que o tempo passa. Segundo os investigadores, a motivação pessoal, o apoio de família e amigos e as regras aplicadas no local de trabalho são muito importantes no processo, assim como campanhas mediáticas, aumentos de impostos sobre o tabaco e leis para a proibição de fumar em certos locais.

Medicamentos têm de ser adaptados às pessoas

Luís Rebelo, da Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, desvaloriza as conclusões da investigação e refere a existência de “muitos estudos” que avaliaram as taxas de êxito das terapias de substituição da nicotina. “Não me deixo impressionar, este estudo não põe em causa a investigação que é feita há vários anos”, afirma, destacando a “amostra pequena” utilizada.

Para que estes medicamentos sejam eficazes, declara, “têm de ser adaptados às pessoas e às suas características”. O especialista sublinha ainda a importância da monitorização para que haja resultados. Para Luís Rebelo, o facto de estes medicamentos serem de venda livre pode fazer com que as pessoas sejam “mal orientadas”, tomem doses mais baixas de nicotina do que deveriam e não obtenham os resultados esperados.

10.01.2012 - 11:22 Por Hugo Torres, Rita Araújo

Sem comentários: