quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Geração explosiva


"Queres speeds?" O rapaz tem pouco mais de 16 anos e sem esperar pela resposta desaparece no pinhal. A mesma pergunta poderia ter sido lançada noutro tempo, noutra festa. Nos anos 80, quando se 'speedava' ao som da new have ou do rock'and'roll, as letras das nossas canções preferidas entravam no corpo (com ou sem ajuda de substâncias ilícitas) e eram a matéria para a libertação do espírito e o veículo para a dança. Mas, na noite de sábado passado, numa tenda montada em pleno descampado da serra de Sintra, dançava-se trance, e ninguém canta ao som de trance.

A batida sincopada, pura e envolvente na sua frieza monocórdica, entranha-se até aos ossos. Da mesa de mistura do DJ israelita projectam-se sobre a pequena massa compacta fachos de luz esverdeada e ele dispara rajadas de ritmo sobre a pista. Parece controlar em absoluto os músculos dos corpos que vibram na tenda iluminada.

Tudo em redor é escuro. O cheiro a canabis confunde-se no cheiro a terra seca e mistura-se com a frescura do pinhal. Há um frenesim eléctrico de gente - a maioria jovens, a maioria rapazes - que se movimenta em pequenos bandos. Alguns trazem t-shirts penduradas ao ombro e o dorso nu, apesar do frio de cortar. Subitamente, três figuras fardadas avançam pelo recinto da festa. São militares que vigiam a mata. Vieram espreitar e trazem pistolas no coldre. Um deles carrega displicentemente uma G3, que, de vez em quando, segura nas mãos como se fosse disparar. Mas ninguém parece ligar, ou tão-pouco querer saber, de três militares que invadem uma free-party (festa organizada ilegalmente), algures do meio da serra de Sintra.

"Quando estou numa discoteca a passar música, sei olhar para o aspecto global do público e reconhecer que 90 por cento das pessoas estão sob o efeito de qualquer coisa. Consigo percebê-lo pela maneira como dançam e pela forma como estão totalmente receptivas e activas", explicava-nos há poucos dias Rui Miguel, DJ português, especializado em música electrónica e house progressivo. Tem 36 anos, trabalha nas pistas de dança desde os 18. Também ele é dado aos mais variados consumos de substâncias psico-activas: da cocaína ao ecstasy e seus derivados (vulgo pastilhas), até às ervas puras. "Heroína, não", ressalva. "Nunca experimentei. É uma droga muito decadente."

Em busca do prazer

A cultura de noite está inequivocamente liga da ao consumo e à procura do prazer. Tem-se movimentado velozmente ao longo das últimas décadas e as drogas que lhe estão associados antecipam e projectam as novas formas sociais de estar de gerações em fúria de viver. As raves que surgiram nos anos 90 foram uma resposta à cultura da house, libertaram os amantes da música de dança e tomaram de assalto primeiro os espaços urbanos abandonados, depois as zonas fora da cidades. No início do movimento rave havia uma intenção de rasgar e quebrar a regra que não se prolongou na cultura da free-party, onde o espírito dominante é somente viver intensamente a festa, de forma livre e breve, usufruindo a música e a ligação ao corpo numa entrega absoluta ao prazer da dança.

Neste contexto, a palavra 'droga' fundiu-se com o termo 'lúdico' e, assim, entramos alegremente na era dos consumos recreativos. Os novos dependentes descartaram-se da carga negativa inerente à palavra toxicodependência. Hoje chamam-se consumidores.

"Atenção às palavras", alertava-nos Hélder Santos, responsável pela organização Conversas de Rua, há mais de 12 anos a trabalhar na noite. "Já não se usa falar de drogas leves e de drogas duras. Agora dizemos consumos legais e ilegais e o termo genérico passou a ser substâncias psico-activas."

Nesta mudança de paradigma está implícita toda uma nova forma de olharmos para o fenómeno. Explica Hélder Santos: "Quando, há cerca de 10 anos, os toxicodependentes saíram para a rua e apareceu a figura do arrumador, esta geração, que agora tem vinte e tal anos, interiorizou uma ideia de decadência associada à droga que não confere com a cultura generalizada que se observa nas drogas associadas à noite.

A maioria das pessoas que faz o culto da noite pratica uma variedade de consumos. O drogado down já era. Agora, as pessoas consomem e vivem o seu dia-a-dia sem terem sequer consciência se há ou não neste comportamento uma atitude de dependência. Tudo isto tem exclusivamente a ver com auto-imagem, performance e prazer."

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Cocktail de Viagra e ecstasy

Fernando Mendes, psicólogo de Coimbra, presidente do IREFREA em Portugal - o instituto europeu que promove estudos sobre prevenção e comportamento de risco - conta uma história insólita: "Estava a fazer um estudo sobre o consumo de esctasy e foi-me dito que havia um grupo de jovens que consumia nas praias da zona de Leira. Teriam entre 15 e 19 anos. Quando falei com eles, percebi que as noites na praia eram concursos de sexo, jogos colectivos, com o objectivo de ver quem conseguia aguentar mais, variando de parceira, na mesma noite. Neste ritual, alguns deles faziam batota e tomavam drogas misturadas com Viagra."

Esta foi a primeira vez que o psicólogo se deparou com a prática do sextasy. Trata-se da ingestão de um cocktail explosivo, que associa o ecstasy (e mais recentemente a cocaína), ao Viagra, que também pode ser misturado com bebidas energéticas como o Redbull. Diz-nos o psicólogo: "Aquilo que para mim começou por ser um caso, ganhou visibilidade. Não posso dizer que seja um fenómeno muito generalizado, mas já tem alguma dimensão e revelou-nos um novo perfil de consumidores, para quem a diversão, a noite e a música estão associadas a uma vontade intensa de desejo sexual."

Neste perfil, inscrevem-se jovens e adultos, cujas idades podem variar entre os 20 e os 35 anos. "São jovens machos predadores, que associam o ecstasy, que proporciona uma sensação de relaxe, bem-estar e despertar dos sentidos ao Viagra, que lhes dá a ideia de uma performance sexual infalível. É um fenómeno transversal e interclassista e nem sempre está associado a dependência, mas que acarreta enormes comportamentos de risco, pois, neste estado, raramente se preocupam em usar preservativo" acrescenta o psicólogo.

Nos últimos anos, foram publicados inúmeros estudos sobre o consumo de Viagra entre uma população cada vez mais jovem, que toma o famoso comprimido azul associado a outro tipo de drogas para fins exclusivamente recreativos. Todos eles alertam para o perigo associado ao seu uso sistemático, pois pode causar danos irreversíveis no sistema límbico e provocar impotência.

"Droga e prazer estão intimamente ligados e sempre assim foi ao longo do tempo. Mas desde os anos 70 que temos vindo a sublimar uma cultura puramente hedonista. Toda esta generalidade de policonsumos ecstasy, derivados e todo o tipo de substâncias: cocaína, haxixe, erva, etc.), associados puramente à ideia de diversão, é um reflexo disso mesmo", afirma o mentor de Conversas de Rua.

A sua experiência ao longo destes últimos 12 anos a trabalhar sobre consumos recreativos leva-o a observar a mudança sistemática de consumos entre a população jovem. Com a divulgação acelerada de informação tudo é rápido, tudo compete. Via Net, podemos encomendar quilos de Viagra, saber exactamente todas as substâncias de que é composto um speed ou um ácido e fabricá-lo em laboratórios caseiros.

Nas suas incursões na noite, uma das perguntas que as equipas desta organização fazem aos jovens é: "Que droga pensas estar a consumir no próximo ano?" Esta indagação, permite-lhes fazer uma sondagem que lhes dá as pistas para perceber qual a nova psico-substância que irá ser posta a circular e, assim, trabalhar nos flayers que distribuem nos bares e nas festas.

"A droga que começou agora a dar é a ketamina. Um anestésico usado em medicina veterinária, que em contextos recreativos, e dependendo das doses, pode provocar uma combinação entre efeitos estimulantes, depressores e alucinogénios. Apresenta-se sob a forma líquida, em pó ou pode ser ingerida através de cápsulas", explica.

O lema da associação Conversas de Rua em relação à prevenção de drogas é apenas este: reduzir riscos, minimizar danos. O método que praticam baseia-se simplesmente em veicular informação sobre as várias drogas que circulam no mercado, alertar para os danos, distribuir preservativos, conversar com quem precisa e estar disponível para o talk down.

"No fim de uma noite de dança e de consumos há sempre muita gente perdida e exausta, que facilmente pode entrar em pânico." Num estudo sobre noite e cidades, recentemente publicado pelo IFRRA, os portugueses estão assinalados, a seguir aos espanhóis, entre todos os europeus os que mais horas saem à noite. Mas nos gráficos dos acidentes de viação e nas entradas das urgências dos hospitais, a associação ao consumo de substâncias psico-activas ainda está por fazer.

Ana Soromenho (www.expresso.pt)
Sábado, 26 de Set de 2009

http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/537982

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